Não nasci em Mangaratiba, mas desde sempre frequento a cidade por causa dos meus avós – o Sítio da Parada da Barreira era deles, adquirido em 1961. Antes, meu pai já tinha a Fazenda Rio da Prata, em Rio Claro. Minhas recordações de infância são da Serra do Piloto e da estrada, que era toda murada e em perfeitas condições – ao longo dos anos foi se deteriorando. Meu avô Cornélio Kaiser já fazia o sistema agroflorestal, por instinto. Lavrador vindo de Minas Gerais no pós-guerra (46 ou 47), passou a plantar banana no sítio. Como é um terreno muito rochoso, brinco que ele “tirava banana de pedra para viver”. Foi o primeiro na Serra a ter luz elétrica nos anos 1970. Comprou um gerador francês e fez uma miniusina d’água próximo da cachoeira. As terras vão até um pouco depois da Cachoeira dos Escravos. Era bem restrito, com horários rígidos de funcionamento, mas pioneiro. Minha avó, Maria Maggiollo Kaiser, era benzedeira e parteira na Serra. Nossa casa era o entreposto na região, onde o médico deixava os medicamentos para que as pessoas pudessem buscar em caso de emergência. Não tinha ônibus. A Estrada do Atalho, que era feita em pedra “cabeça de negro”, passa pela propriedade. Acho que tem esse nome porque as pessoas que não tinham carro, carroça ou cavalo preferiam ir por lá porque realmente o trajeto é mais curto até a vila. Da minha infância, lembro também da Folia de Reis. Vinham três homens vestidos de palhaço e iam passando de casa em casa, entre elas a dos meus avós – nos anos 70. Lembro bem do trem Macaquinho, que eu pegava na Central, ia até Santa Cruz, e de lá trocava de trem e ia até Itaguaí. Passei toda a infância frequentando o sítio dos meus avós. Depois, adulta, acabei passando longos períodos sem ir à Serra, porque morava fora do estado. Formei-me em Turismo e trabalhei muitos anos com isso até finalmente conseguir me estruturar para voltar para a Serra e transformar a propriedade da família em um negócio. A maioria das pessoas que mora na Serra trabalha como prestadores de serviços ou empregados dos condomínios e resorts da cidade. As mulheres descem para trabalhos domésticos, como faxineira e babá, e os rapazes atendem como jardineiros e manutenção. O transporte é bem precário. São quatro vezes por dia, mas no domingo não tem o último horário. O ônibus é sucateado, a empresa não preza pela manutenção. Uma vez, no horário mais cheio, o da manhã, o ônibus só não despencou da ribanceira sem freio porque o motorista jogou o veículo em um poste. É uma passagem cara pela quilometragem. A estrada hoje recebe fluxo muito pesado de trânsito, com ônibus, caminhões, carretas e isso sobrecarrega a estrada. Hoje, há duas associações na Serra do Piloto. Gugu é presidente da Associação de Moradores. Eu sou presidente da Associação dos Empreendedores de Turismo da Serra de São João Marcos, onde estamos montando o Circuito São João Marcos para impulsionar a preservação e o turismo da Serra do Piloto. Um dos objetivos é justamente melhorar a estrada. Que se reforce a preservação, o limite de peso e, se possível, uma estrada-parque, já que muitos animais silvestres são atropelados.