VALDIR DOS SANTOS SOARES

ITACURUÇA

Quando falo de Mangaratiba me lembro da infância. Meu pai e avô foram ferroviários. O outro avô era hidroviário e vinha do Nordeste para Mangaratiba navegando. Lembro do trem, andava muito de trem. Era uma viagem relaxante, você esquecia da vida, via as pessoas nas praias, que acenavam para quem estava nos trens. Cheguei a ir de lancha até Angra dos Reis, que ia parando entrando nas praias, apanhando as pessoas. Parava próximo das praias e as canoas levavam as pessoas até ela. Eram lanchas de madeira bem cômodas, com nomes como Peruana, Parati, Guarapiranga. Tinha as lanchas de socorro, menores, como a Mangaratiba e a Ianque. Entravam nas praias para pegar as pessoas que iam ao Centro vender suas produções excedentes, como peixes, bananas e galinhas. Eram caixas e gaiolas de produtos no porão. E tinham as barcas “catraias”, que auxiliavam com a carga, que era coberta com uma lona e rebocada por outras embarcações, vinda de Paraty. As produções menores, das praias no caminho vinham no porão da lancha comum ou em canoas individuais. Nasci no Rio do Choro, atrás da pousada da Vovó Corina, do Cícero. Tinha um riacho que hoje está canalizado, mas sempre que chove muito faço meu trajeto pelo calçadão. Estudei na cidade até o primeiro ano, depois minha família se mudou para Coroa Grande. Meu pai era chefe de estação ferroviária. Trabalhou na estação de Coroa Grande e da Baixada Fluminense. Quando acabou o trem em Mangaratiba ele já estava aposentado e lamentou muito. Saía do Centro às 4h e ainda via a lua espelhada no mar e depois o sol. Voltei a morar em Mangaratiba em 1980, comecei a namorar a minha esposa, casei em 1982, morei um tempo em Itaguaí e depois voltei. Saí antes da Rio-Santos e voltei depois. Senti que mudou o contingente, a quantidade de gente trabalhando na MBR, e em outros locais da cidade as obras da estrada continuavam acontecendo, levando a estrada até Paraty e Santos. Ainda tinha muitos funcionários que moravam aqui. Vários fizeram família aqui, outros levaram gente daqui para fora. Montei um negócio de assistência técnica em 1982 e como chaveiro em 1984. Fiz manutenção inclusive para a MBR. Antes, meu ponto era em uma barraca pública ao lado da igreja, depois passou para a casa em que eu morava de aluguel e, depois, para a Praia do Saco, onde era a rodoviária antiga. Só em 1990 cheguei ao ponto de hoje, na frente da praia. Minha família é antiga na cidade, a Família Batalha. Essa família começou no Caju, no Rio de Janeiro, numa companhia de pesca vinda da Ilha da Madeira, e se espalhou pelo estado. A outra parte vem de um avô que era neto de escravizados. Eles tiveram propriedades na cidade, mas depois perderam. Tenho um parentesco com o tradutor da família real portuguesa na vinda para o Rio, em 1808, que ganhou terras na região. A outra parte da família veio de Paraty, a parte da avó, filha de portugueses com indígenas – caiçaras. O avô da minha avó era entalhador, da Família Santos Silva. Lembro de uma tia-avó centenária, quando ele era criança, que era chamada de Vovó Leopoldina. Hoje a família está desfrutando Mangaratiba. Adoro a cidade, conheço todo mundo. As pessoas se espalharam, mas ainda tem muita gente conhecida. As pessoas que estão chegando na cidade, algumas estão se integrando, outras não.

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